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A experiência da pandemia e a educação

Publicada em 16/07/2020.

Por: Gabriel Grabowski

A experiência, para ser educativa, deve conduzir a um mundo expansivo de matérias de estudo, constituídas por fatos ou informações, e de ideias. Esta condição somente é satisfeita quando o educador considera o ensino e a aprendizagem como um processo contínuo de reconstrução da experiência” (DEWEY, 1958).

Para o filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey, na sua obra Experiência y Educación, experiência é uma fase da natureza, pela qual ocorre a interação entre o ser e o ambiente e estes são mudados. Entendia ele que a educação não seria apenas um processo de preparo para a vida, mas uma contínua reconstrução e reorganização da experiência.

Essa experiência não se limita ao ato no presente, mas também remonta ao que foi aprendido no passado e se reporta ao futuro para se aprimorar a inteligência quando existe algum problema. O ser humano sofre a experiência e reage ao mesmo tempo. O ponto central para Dewey não é o sujeito nem o objeto, nem a natureza ou o espírito, mas as relações entre eles: a experiência significa integração. As ideias e os fatos não existem fora da experiência.

A pandemia causada pelo novo coronavírus, que estamos vivenciando é uma experiência extraordinária, para o mal e para o bem, da qual poderemos extrair muitas aprendizagens, desde que estejamos dispostos e interessados. Essa experiência é única, a primeira dessa ordem de grandeza que estamos a enfrentar e, esperamos, que seja a última enquanto seres humanos vivos finitos.

Nosso futuro, bem como das próximas gerações, será impactado pelas transformações que formos capazes de operar a partir desta experiência. A omissão e a ignorância também terão seus impactos.

Para fazer frente a esta pandemia, cada país, governo e nação está adotando estratégias e formas de combate, a partir de orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), das Ciências Médicas/Biológicas e das autoridades sanitárias. No caso brasileiro, diferente dos protocolos internacionais, não há coordenação nem estratégia unificada pelo governo federal com os entes federados.

É um salve-se quem puder. É presidente criticando e demitindo ministros, acusando governadores e prefeitos, incitando a população a expor-se ao invés de proteger-se. Essas duas experiências – da pandemia e do desgoverno – precisam de uma análise e reflexão muito apurada de cada cidadão brasileiro minimamente responsável com sua vida e a dos outros.

Entre muitas finalidades da educação, expressas no artigo 205 da Constituição Federal de 1998 e na LDB, está o desenvolvimento da pessoa para a vida, seu preparo para a cidadania e qualificação para o trabalho, com a colaboração da sociedade. O Estado, através de seus governos, deve garantir as condições deste direito.

Os comportamentos humanos durante essas experiências já demonstram que a educação e formação humana não estão habilitando as pessoas para a vida, para a cidadania e para a solidariedade que o momento requer, com as devidas exceções. No lugar de gratidão para com os profissionais da saúde, ocorreram várias hostilidade com requinte de crueldade, bem como para com idosos e “estrangeiros”, mais expostos ao contágio pela suas condições.

Penso que a primeira aprendizagem que a pandemia já escancarou é que temos uma sociedade, um desgoverno, um sistema de saúde e o próprio “deus mercado”, totalmente despreparados e desprovidos para enfrentá-la.

A “agnotologia” (ignorância) instalou-se e manifesta-se na figura do presidente da República, demitindo o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e a equipe que ele coordenava no combate à Covid-19, com apoio dos cientistas, especialistas em saúde e da maioria dos brasileiros, por puro orgulho e autoritarismo do “chefe maior da nação”.

Tal decisão, gerou ainda mais desarticulação, desorientação e desobediência civil para com as orientações de isolamento social frente à fragilidade de um sistema hospitalar insuficiente em leitos, equipamentos e profissionais. E, para agravar, insanamente, essa posição do presidente conta com uma rede de apoio de Agnotos, ingênuos e mal-intencionados, especialistas em achismo e fake news, formados na faculdade a remoto do WthasApp.

Uma outra evidência social, política e científica revelada por essa experiência pandêmica, apesar de nosso Sistema Único de Saúde (SUS) ser um dos melhores do mundo, é a ausência de uma estrutura nacional de saúde, com rede hospitalar em todo o território brasileiro (descentralizada e interiorizada), com profissionais de saúde qualificados e suficientes, com equipamentos e condições de trabalho e proteção, com investimentos permanentes e sistemáticos em ciência, educação e tecnologia e estruturas de enfrentamento de crise.

A educação no contexto de anormalidade

Outra evidência, que nos interessa diretamente refletir neste momento é o impacto na educação, o quanto os sistemas de ensino (federal, estaduais e municipais), bem como as diversas mantenedoras, redes e instituições que não estão preparadas e estruturadas para contextos de anormalidade.

Ressalto que há, por um lado, iniciativas e contribuições fantásticas de universidades com pesquisa através de seus professores, cientistas e estudantes na linha de frente do combate ao vírus, salvando muitas vidas.

Porém, a ausência de um Sistema Nacional de Educação Articulado que, somado com a pior gestão na história do MEC, além da ausência de um efetivo Regime de Colaboração entre os sistemas de ensino, mais a ausência de investimentos nas escolas públicas, responsáveis por 86% das matrículas na educação básica, a aprendizagem de qualidade de grande parte dos estudantes está comprometida neste período, acentuando ainda mais a desigualdade social e educacional do Brasil.

Vamos pagar ainda mais caro por convivermos de forma natural e insensível com tamanha desigualdade social e com a irresponsabilidade da ausência de políticas públicas de apoio e proteção de 100 milhões de brasileiros beneficiários do auxílio social emergencial. Essa população pobre, desempregada, sem renda, sem comida suficiente (e agora também sem merenda), não possui internet pública nem condições objetivas e subjetivas para manter as atividades escolares à domicílio ou a remoto (virtual, EaD).

A educação e as escolas sem aporte maior de apoio governamental extra não possuem condições mínimas de enfrentamento das consequências que a desigualdade social, econômica, cultural e de renda das famílias impactam na aprendizagem dos estudantes.

E os investimentos?

A União, os estados e os municípios não tomaram nenhuma iniciativa para ampliar os investimentos na educação neste período de crise e de suspensão presencial das aulas. Ao contrário, estão suspendendo contratos, demitindo, reduzindo e atrasando salários de professores e funcionários; retirando direitos (plano de carreira e difícil acesso); reestruturando órgãos normativos da educação durante a crise (CEEd-RS); cortando bolsas de pesquisa e, o mais assustador, compactuando com o fim do Fundeb, o SUS da educação.

Por outro lado, deve ser destacado e valorizado o esforço de redes e instituições de ensino, educadores e estudantes, famílias e comunidades, num amplo engajamento para manter atividades de estudo e aprendizagem mesmo com poucas ou sem condições. Há uma dedicação para que a aprendizagem não pare neste contexto.

Mas, é necessário avaliar as condições, as estruturas, as carências e as necessidades das famílias e mesmo das escolas por conta da transposição das atividades. No estudo em casa, os pais trabalham, falta o professor para mediar os estudos, falta acesso à biblioteca (inclusive virtual), inexistem laboratórios e internet pública com qualidade e estabilidade.

O que caracteriza a essência do processo educativo é a sistematização e organização do saber e dos conhecimentos para que os seres humanos, as sociedades, as instituições, as organizações e os gestores públicos possam estar preparados para a realidade presente e para cenários futuros incertos.

Surpreendidos e impactados todos precisamos nos isolar e ficar em casa. Porém, há muita pressão, expectativa e reivindicação de pais e setores educacionais para o retorno à “normalidade das atividades nas escolas”.

Porém, mesmo após 50 dias de cessação das atividades, não se percebe um novo plano com estratégias articuladas com outras áreas (saúde, assistência social, segurança, higienização) e investimentos novos para a retomada das atividades com segurança e proteção dos estudantes e professores.

Nada foi construído e replanejado para assegurar as aulas com segurança sanitária e, menos ainda, um novo plano pedagógico que redefina o que será prioridade estudar agora, como estudar e onde estudar após esta experiência que parou o mundo.

Não existe mais a normalidade escolar anterior. Não podemos voltar ao que não existe mais. É uma nova realidade que foi instaurada inclusive no espaço escolar.

A pandemia e o isolamento social estão propiciando tempo para ler mais, estudar, pesquisar e dialogar sobre outros assuntos que não compõem o currículo escolar, como: quem somos enquanto seres humanos? Que vida estamos vivendo? Que obra na nossa existência deixaremos? Que civilização, sociedades e valores construiremos para viabilizar a vida e a convivência humana neste planeta?

Nesta perspectiva, a maioria das atividades disciplinares praticadas e transmitidas para os estudantes pode esperar um tempo. Porém, a ameaça real contra nossa vida, a possibilidade da morte, o que é prioritário e o que é supérfluo, se vamos priorizar a vida com saúde ou a economia do consumismo, se o que importa é a vida partilhada com outros ou a solidão entre a multidão, são reflexões e aprendizagens que a atual experiência nos desafia a priorizarmos.

Enquanto docente das ciências humanas, estou cada vez mais convicto e seguro, a partir desta experiência de 50 dias de isolamento, de que a educação (inclusive escolar) é uma atividade eminentemente humana que requer a interação entre professor e estudante em ambientes planejados de aprendizagem; que a Ciência e os saberes dela derivados prevalecerão sobre o senso comum vulgar e o obscurantismo da ignorância; que a economia para a VIDA deve prevalecer sobre a economia do capital, da produção, da exploração da natureza e do consumismo; que a saúde e o meio ambiente devem ser nossa prioridade e nossa principal riqueza a cuidar; que a aprendizagem na escola, resulta da interação de uns com os outros e o seu meio; que a aprendizagem presencial é insubstituível por qualquer rede virtual; que as tecnologias são ferramentas complementares à ação humana e que, as PESSOAS devem estar no centro de tudo, e não o mercado.  

A ansiedade e a reivindicação pela “volta à normalidade” das aulas nas instituições de ensino não podem significar a mera retomada das mesmas rotinas acadêmicas, dos mesmos métodos e ensinamentos, das mesmas concepções de superioridade da espécie humana sobre os demais seres vivos, do conhecimento científico e da tecnologia como ferramentas de poder, de exploração e destruição do meio ambiente.

Uma formação centrada nos valores da competitividade, individualismo, empreendedorismo, inovação e sucesso profissional ancorado no resultado da riqueza material devem ser repensados. Se a experiência do mundo parado, milhões de pessoas contaminadas pelo vírus, milhares de centenas mortos e impotência global no combate a um vírus invisível não forem suficientes para repensar a vida e as antigas rotinas, significa que não somente não queremos aprender com as experiências como optamos pela cegueira da caverna e da ignorância.  

Dessa experiência social e educacional, com ou sem a interlocução por meio virtual e remoto, muitas aprendizagens e avanços estão em andamento. Porém, imaginar e decretar “o triunfo da comunicação remota, se ocorrer, precisará ser assumido como um retundo fracasso da civilização. Toque, calor e cheiro ainda fazem parte da natureza humana”. (J.J. Camargo, maio 2020)