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"Os trabalhadores têm, hoje, o papel de organizar a resistência e buscar manter civilidade nas relações de trabalho"

Valdir Kinn, coordenador-geral do Sinpro-Noroeste
Valdir Kinn, coordenador-geral do Sinpro-Noroeste
Publicada em 01/05/2020.

- O dia do trabalhador é uma importante data para relembrar lutas históricas da classe trabalhadora. Mas no Brasil de 2020 há, efetivamente, o que comemorar, diante de tantos ataques aos direitos trabalhistas?

De fato, no momento em que estamos, e especialmente nos últimos três anos, não temos muito o que comemorar em termos de conquistas dos trabalhadores. Porém, essa é uma data significativa e importante para refletirmos sobre o papel histórico que os trabalhadores têm, principalmente nos dias atuais. É um momento de pandemia que traz inúmeros problemas e desafios, principalmente quando grupos empresariais apresentam uma falsa dicotomia que é o embate entre saúde e economia. Tanto esta falaciosa oposição de valores, quanto o quadro geral do País em si, deixam algo muito claro: sem os trabalhadores não existe economia, o mundo econômico não consegue reproduzir suas riquezas. Se de um lado não temos muitos avanços a celebrar nos últimos anos, de outro devemos refletir e perceber a relevância da classe laboral para o funcionamento de todo o sistema que nos cerca.

 

- Sempre que há um problema de ordem econômica – e no Brasil eles são frequentes – a primeira intenção dos governos de turno, salvo exceções, é atacar os direitos dos trabalhadores. Mas muitos desses artifícios têm sido barrados, como é o caso da MP do Contrato Verde e Amarelo, recentemente arquivada no Senado. Diante desse cenário, como avalias a atuação do movimento sindical nos últimos anos, com cenários que têm sido hostis ao conjunto dos trabalhadores brasileiros?

Não fosse a busca por mobilização constante, as denúncias, a pressão política e os embates que o movimento sindical têm realizado nesses últimos períodos, não tenho dúvidas de que as relações de trabalho estariam desprovidas de dispositivos jurídicos capazes de regulá-las. Sem dúvida estaríamos retroagindo às condições de trabalho do início do século XIV. Então no Brasil, e no mundo, o movimento sindical tem papel fundamental na mediação entre a ânsia de lucro e acumulação de capital, por parte daqueles que comandam o universo das relações de trabalho, e as necessidades dos trabalhadores que anseiam pelo mínimo de dignidade e justeza. Mesmo com uma política ultraliberal – e que considero completamente equivocada – sendo implementada a nível de País, a representação dos trabalhadores, e suas organizações sindicais, são o anteparo político necessário para que não tenhamos a volta das relações de trabalho que emulam a semiescravidão. Mais do que isso, os sindicatos funcionam como referência ética mínima, para que e as relações não se degradem e beirem à desumanidade no âmbito do mundo do trabalho. Em suma, mais do que nunca os trabalhadores têm que entender que, se estamos perdendo direitos mesmo com as instituições sindicais fazendo seu papel, sem elas tenho convicção de que as relações laborais seriam muito mais perversas e de muito mais sofrimento aos trabalhadores.  

 

- O segmento da educação empresarial tem feito avançar práticas que antes se limitavam a outros setores, como terceirização, precarização das condições de trabalho e contestação a direitos históricos conquistados pelos professores. Como definir representação sindical no ensino privado nos dias atuais e diante de tantos novos desafios?

Essa uma questão complexa, para a qual precisaríamos trazer muitos elementos que pudessem contemplar uma definição minimamente condizente com a realidade. Porém, de forma provisória, defendo duas noções básicas de representação sindical nos tempos atuais. A primeira delas é o conceito de resistência. Na realidade contemporânea os trabalhadores precisam se organizar para resistir, pois a resistência se dá contra o avanço das políticas neoliberais, cujo objetivo é destroçar os direitos trabalhistas conquistados a duras penas no último século. Então vejo que os trabalhadores têm, hoje, esse papel de organizar a resistência e buscar manter civilidade nas relações de trabalho. Um segundo conceito que considero fundamental neste momento é o da reinvenção. Precisamos, mais do que nunca, desenvolver a capacidade de reinventar o modo como construímos e organizamos o movimento sindical, buscando a participação efetiva dos trabalhadores.

 

- A reforma trabalhista de 2017, junto a outras medidas que se seguiram, tinha como clara intenção inviabilizar o movimento sindical no País e abrir caminho para flexibilizar cada vez mais os direitos dos trabalhadores. A estratégia deu certo ou os sindicatos seguem fortes e atuantes?

A reforma sindical, que vem na esteira da reforma trabalhista, assim como diversas outras medidas que têm sido tomadas neste momento de pandemia, inclusive ratificadas pelo poder Judiciário, visam, sim, enfraquecer a representação sindical e as estruturas sindicais como um todo. Nós vivemos um momento na cultura e na organização social que é um processo de desmobilização efetiva. Um exemplo disso que chamo de desmobilização efetiva são os movimentos que crescem nas redes sociais. Eles são, na sua maioria, movimentos desprovidos de reflexão e de visão crítica, que carecem de maior autonomia. De outro lado temos os sindicalismo, que é um movimento com seus equívocos ao longo da história, mas que carrega em si uma cultura da crítica, da reflexão e de posições argumentadas. Dessa forma, posso assegurar que, apesar de todas as tentativas de destruição, o movimento sindical no Brasil e no mundo segue vivo e atuante, com papel preponderante neste momento, sempre na sua busca de uma leitura crítica da realidade e dos rumos da sociedade.

 

- Mas esse papel dos sindicatos só pode ser desempenhado mediante a participação dos trabalhadores...

Por óbvio, como qualquer movimento o sindicalismo precisa ser constantemente reavivado, realimentado, o que só acontece com a participação dos trabalhadores. Muito especialmente o movimento sindical do ensino privado precisa - e vai precisar cada vez mais, basta olhar a realidade que nos cerca – desse trabalho de mediação dos sindicatos, para que possamos construir alternativas a esse quadro que aí está. Para isso, precisamos da participação dos professores e professoras que compõem a nossa categoria. Aproveito a data do 1º para convidar à reflexão sobre o papel que as representações sindicais têm, como mediadoras, nesta realidade tão conflituosa e neste momento tão desfavorável aos trabalhadores.